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Indicadores x Percepção

Indicadores x Percepção

Percepção econômica dos brasileiros: entre a realidade dos dados e a experiência cotidiana

 

A pesquisa ABC Dados sobre a percepção em relação à situação econômica do país traça um panorama detalhado de como os brasileiros avaliam a economia do país, e revela que, em quase todos os temas, a percepção da população diverge significativamente dos indicadores oficiais.

Pessimismo predominante

A visão sobre a economia nacional é majoritariamente negativa: 61% dos entrevistados classificam a situação econômica como ruim ou péssima, e metade afirma que o país está muito pior do que há dois anos. Ainda assim, os brasileiros tendem a avaliar sua própria situação financeira com menos pessimismo do que a situação coletiva.

“Como você avalia a situação econômica do Brasil hoje?”

Péssima51%
 
Ruim8%
 
Boa28%
 
Ótima5%
 

“Em comparação com dois anos atrás, a economia está…”

Muito pior50%
 
Melhorou (total)35%
 

Total de avaliações negativas (péssima + ruim): 61% · Positivas (ótima + boa): 33%

 

Inflação sentida no carrinho

O tema que mais mobiliza percepções negativas é o dos preços. Oito em cada dez entrevistados relatam alta nos preços de alimentos, higiene e limpeza nos últimos 12 meses, e metade afirma conseguir comprar muito menos com o mesmo dinheiro. A alimentação lidera o ranking dos itens percebidos como mais caros, seguida de moradia e saúde, um resultado que guarda correspondência com os dados do IPCA de maio de 2026.

“Como você percebe os preços de alimentação, higiene e limpeza nos últimos 12 meses?”

Subiram muito60%
 
Subiram um pouco22%
 
Ficaram iguais9%
 

“Qual categoria ficou mais cara?”

Alimentação e bebidas50%
 
Moradia (aluguel, energia)18%
 
Saúde e medicamentos16%
 

“Impacto no consumo por causa da alta de preços”

Deixou de comprar muitas coisas45%
 
Deixou de comprar algumas coisas20%
 
Não precisou cortar nada21%
 

50% afirmam conseguir comprar muito menos com o mesmo dinheiro do que há 12 meses

O paradoxo do emprego

Com o desemprego oficial em 6%, o menor patamar histórico para um primeiro trimestre, a pesquisa encontrou um dado surpreendente: 60% dos entrevistados declararam ter perdido emprego ou conhecer alguém próximo que perdeu nos últimos 12 meses. A informalidade também é subestimada, enquanto a taxa oficial é de 37%, boa parte da população não reconhece o trabalho informal como tal.

“Como o desemprego no seu círculo próximo (família, amigos, vizinhos) evoluiu?”

Aumentou muito26%
 
Aumentou um pouco16%
 
Diminuiu (total)33%
 

“Sua situação de trabalho nos últimos 12 meses” (apenas ocupados)

Piorou muito28%
 
Piorou um pouco16%
 
Ficou igual34%
 
Melhorou (total)22%
 

60% perderam emprego ou conhecem alguém próximo que perdeu nos últimos 12 meses · 44% acham mais difícil encontrar emprego formal

 

Juros: o ponto de maior convergência com a realidade

No tema dos juros, a percepção popular é a que mais se aproxima dos dados objetivos. Com a Selic em 14,5% ao ano, 94% dos entrevistados avaliam as taxas cobradas ao consumidor como altas ou muito altas, e 86% já deixaram de fazer alguma compra por considerá-las elevadas demais. Um dado positivo: 72% afirmam sempre verificar a taxa de juros antes de contratar crédito.

“Como você avalia os juros cobrados ao consumidor?”

Muito altos73%
 
Altos21%
 
Razoáveis ou abaixo4%
 

“Você já deixou de comprar ou investir por causa dos juros altos?”

Sim, muitas vezes59%
 
Sim, algumas vezes27%
 

“Você verifica a taxa de juros antes de contratar crédito?” (apenas quem usou crédito)

Sempre verifica72%
 
Às vezes verifica13%
 
Raramente11%
 
Nunca / não sabe como4%
 

50% percebem que ficou mais difícil obter crédito nos últimos 12 meses · Selic em 14,5% a.a. · Crédito livre ao consumidor: 33% a.a.

 

Renda e endividamento

45% dos entrevistados afirmam que sua renda caiu nos últimos 12 meses, ainda que os dados oficiais registrem crescimento real dos salários. O endividamento atinge 58% da amostra, e 42% relataram ter ficado com o nome negativado no SPC ou Serasa. A pesquisa aponta que o comprometimento elevado de renda com dívidas é um fator central para explicar por que parte dos brasileiros percebe queda de poder de compra mesmo quando a renda nominal cresce.

“Sua renda mensal nos últimos 12 meses…”

Diminuiu muito30%
 
Diminuiu um pouco15%
 
Aumentou (total)31%
 

“Seu poder de compra nos últimos 12 meses…”

Caiu muito35%
 
Caiu um pouco20%
 
Melhorou (total)24%
 

“Situação financeira ao fim do mês”

Frequentemente falta dinheiro37%
 
Às vezes falta11%
 
Sempre sobra12%
 

71% reduziram gastos por queda ou insuficiência de renda nos últimos 12 meses

 

“Qual é sua situação atual de dívidas?”

Muitas dívidas28%
 
Algumas dívidas30%
 
Sem dívidas19%
 

“Sua dívida nos últimos 12 meses…” (apenas endividados)

Aumentou muito26%
 
Aumentou um pouco22%
 
Ficou igual18%
 
Diminuiu (total)13%
 

“Situação declarada da dívida atual” (entre endividados)

Crítica — não consigo honrar18%
 
Preocupante29%
 
Confortável13%
 

42% ficaram com o nome negativado no SPC ou Serasa nos últimos 12 meses · 57% acreditam que a grande maioria das famílias brasileiras está endividada

 

Identidade política como filtro da realidade

Um dos achados mais relevantes da pesquisa é a polarização das percepções econômicas segundo o voto em 2022. Eleitores de Lula e de Bolsonaro descrevem realidades praticamente opostas em todos os indicadores, desde a avaliação geral da economia até a percepção de preços, emprego e renda. A única convergência significativa entre os dois grupos está no comportamento de verificação de taxas de juros, sugerindo que o impacto financeiro direto supera o filtro político.

Comparação de percepções econômicas por voto em 2022

 
Eleitores de Bolsonaro
 
Eleitores de Lula

Avaliação da economia como péssima

Bolsonaro77%
 
Lula5%
 

Economia “muito pior” do que há 2 anos

Bolsonaro91%
 
Lula—
 

Preços de consumo subiram muito

Bolsonaro95%
 
Lula12%
 

Desemprego no entorno “aumentou muito”

Bolsonaro48%
 
Lula4%
 

Sempre verificam taxa de juros (convergência)

Bolsonaro67%
 
Lula67%
 

 

Endividamento como amplificador

A análise dos cruzamentos revela que o nível de endividamento é o principal amplificador das percepções negativas na pesquisa, em alguns casos, mais do que renda, escolaridade ou região. Quanto maior o endividamento, mais negativa é a leitura de todos os indicadores econômicos. O mecanismo é circular: choques negativos levam ao crédito, que comprime a renda disponível, que intensifica o pessimismo, independentemente do que os agregados macroeconômicos registrem.

A pesquisa entrevistou 3442 brasileiros e brasileiras de todos os estados entre os dias 9 e 14 de junho de 2026. A margem de erro do levantamento é de 2 pontos percentuais e a margem de segurança é de 95%.

Leia mais sobre a pesquisa aqui.