Percepção econômica dos brasileiros: entre a realidade dos dados e a experiência cotidiana
A pesquisa ABC Dados sobre a percepção em relação à situação econômica do país traça um panorama detalhado de como os brasileiros avaliam a economia do país, e revela que, em quase todos os temas, a percepção da população diverge significativamente dos indicadores oficiais.
Pessimismo predominante
A visão sobre a economia nacional é majoritariamente negativa: 61% dos entrevistados classificam a situação econômica como ruim ou péssima, e metade afirma que o país está muito pior do que há dois anos. Ainda assim, os brasileiros tendem a avaliar sua própria situação financeira com menos pessimismo do que a situação coletiva.
“Como você avalia a situação econômica do Brasil hoje?”
“Em comparação com dois anos atrás, a economia está…”
Total de avaliações negativas (péssima + ruim): 61% · Positivas (ótima + boa): 33%
Inflação sentida no carrinho
O tema que mais mobiliza percepções negativas é o dos preços. Oito em cada dez entrevistados relatam alta nos preços de alimentos, higiene e limpeza nos últimos 12 meses, e metade afirma conseguir comprar muito menos com o mesmo dinheiro. A alimentação lidera o ranking dos itens percebidos como mais caros, seguida de moradia e saúde, um resultado que guarda correspondência com os dados do IPCA de maio de 2026.
“Como você percebe os preços de alimentação, higiene e limpeza nos últimos 12 meses?”
“Qual categoria ficou mais cara?”
“Impacto no consumo por causa da alta de preços”
50% afirmam conseguir comprar muito menos com o mesmo dinheiro do que há 12 meses
O paradoxo do emprego
Com o desemprego oficial em 6%, o menor patamar histórico para um primeiro trimestre, a pesquisa encontrou um dado surpreendente: 60% dos entrevistados declararam ter perdido emprego ou conhecer alguém próximo que perdeu nos últimos 12 meses. A informalidade também é subestimada, enquanto a taxa oficial é de 37%, boa parte da população não reconhece o trabalho informal como tal.
“Como o desemprego no seu círculo próximo (família, amigos, vizinhos) evoluiu?”
“Sua situação de trabalho nos últimos 12 meses” (apenas ocupados)
60% perderam emprego ou conhecem alguém próximo que perdeu nos últimos 12 meses · 44% acham mais difícil encontrar emprego formal
Juros: o ponto de maior convergência com a realidade
No tema dos juros, a percepção popular é a que mais se aproxima dos dados objetivos. Com a Selic em 14,5% ao ano, 94% dos entrevistados avaliam as taxas cobradas ao consumidor como altas ou muito altas, e 86% já deixaram de fazer alguma compra por considerá-las elevadas demais. Um dado positivo: 72% afirmam sempre verificar a taxa de juros antes de contratar crédito.
“Como você avalia os juros cobrados ao consumidor?”
“Você já deixou de comprar ou investir por causa dos juros altos?”
“Você verifica a taxa de juros antes de contratar crédito?” (apenas quem usou crédito)
50% percebem que ficou mais difícil obter crédito nos últimos 12 meses · Selic em 14,5% a.a. · Crédito livre ao consumidor: 33% a.a.
Renda e endividamento
45% dos entrevistados afirmam que sua renda caiu nos últimos 12 meses, ainda que os dados oficiais registrem crescimento real dos salários. O endividamento atinge 58% da amostra, e 42% relataram ter ficado com o nome negativado no SPC ou Serasa. A pesquisa aponta que o comprometimento elevado de renda com dívidas é um fator central para explicar por que parte dos brasileiros percebe queda de poder de compra mesmo quando a renda nominal cresce.
“Sua renda mensal nos últimos 12 meses…”
“Seu poder de compra nos últimos 12 meses…”
“Situação financeira ao fim do mês”
71% reduziram gastos por queda ou insuficiência de renda nos últimos 12 meses
“Qual é sua situação atual de dívidas?”
“Sua dívida nos últimos 12 meses…” (apenas endividados)
“Situação declarada da dívida atual” (entre endividados)
42% ficaram com o nome negativado no SPC ou Serasa nos últimos 12 meses · 57% acreditam que a grande maioria das famílias brasileiras está endividada
Identidade política como filtro da realidade
Um dos achados mais relevantes da pesquisa é a polarização das percepções econômicas segundo o voto em 2022. Eleitores de Lula e de Bolsonaro descrevem realidades praticamente opostas em todos os indicadores, desde a avaliação geral da economia até a percepção de preços, emprego e renda. A única convergência significativa entre os dois grupos está no comportamento de verificação de taxas de juros, sugerindo que o impacto financeiro direto supera o filtro político.
Comparação de percepções econômicas por voto em 2022
Avaliação da economia como péssima
Economia “muito pior” do que há 2 anos
Preços de consumo subiram muito
Desemprego no entorno “aumentou muito”
Sempre verificam taxa de juros (convergência)
Endividamento como amplificador
A análise dos cruzamentos revela que o nível de endividamento é o principal amplificador das percepções negativas na pesquisa, em alguns casos, mais do que renda, escolaridade ou região. Quanto maior o endividamento, mais negativa é a leitura de todos os indicadores econômicos. O mecanismo é circular: choques negativos levam ao crédito, que comprime a renda disponível, que intensifica o pessimismo, independentemente do que os agregados macroeconômicos registrem.
A pesquisa entrevistou 3442 brasileiros e brasileiras de todos os estados entre os dias 9 e 14 de junho de 2026. A margem de erro do levantamento é de 2 pontos percentuais e a margem de segurança é de 95%.
